Em 1º de abril de 1964 o Brasil iniciava o período mais triste de sua história, da ditadura civil-militar instaurada com o golpe contra o presidente João Goulart.
Curiosamente, João Goulart havia sido atleta das categorias de base do Colorado e campeão municipal juvenil em 1932.
Nenhum clube brasileiro ofereceu diretamente resistência ao golpe. Mas alguns foram investigados pela ditadura militar.
O Internacional já sofreu os efeitos da falta de democracia em 17 de setembro de 1967, no chamado Gre-Nal do Ministro ( https://futeboloutrahistoria.blogspot.com/2020/09/um-classico-internacional-1x0-gremio.html ). Mas neste caso a ação da ditadura foi mais no sentido de favorecer o rival.
Entretanto, os esbirros da ditadura iriam investigar dirigentes e atletas do Internacional, produzindo dossiês e documentos.
Em 4 de junho de 1970, a Divisão Central de Informações da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul elaborou um dossiê sobre a direção do Internacional, encaminhado ao Serviço Nacional de Informaçoes, classificado como "confidencial".
Na abertura do documento, o Internacional era definido como "uma sociedade futebolista que tem larga penetração na massa popular, especialmente entre pessoas humildes." Mas a direção eleita no final de 1969 preocupava os agentes da ditadura. Também segundo o documento, "após a última eleição da diretoria, notou-se que seus dirigentes tem posições estranhas."
Tendo em vista a influência do Internacional na população gaúcha, e as "ideias estranhas" de seus dirigentes, foram elaboadas fichas de seis membros da diretoria executiva do clube: Carlos Stechmann (presidente), Ibsen Pinheiro, Cláudio Cabral, Hugo Amorim, Ivo Correa Pires e Mário Chaves.
O presidente Carlos Stechmann tinh apenas uma passagem, de 23 de junho de 1950, onde ele é citado como membro do Partido Comunista Brasileiro em Bagé. Tendo se mudado para Porto Alegre, continuava sendo "elemento filiado e colaborador do Partido."
Cláudio Cabral também tem uma passagem, de 19 de novembro de 1968. Ele é citado como membro da chapa vencedora para o Centro Acadêmico da Faculdade de Caxias do Sul (provavelmente os agentes confundiram Centro Acadêmico com DCE). Sob sua orientação, a entidade passou a publicar o jornal O Avanço, "altamente subversivo e comunizante".
Hugo Amorim, delegado de polícia, também havia sido alvo de investigação. Em 14 de abril de 1965 o DOPS informava que ele "é visto frequentemente em companhia de comunistas."
Mário Chaves, por sua vez, aparece em três passagens. As duas primeiras em 1961, referentes a uma greve de funcionários da CEEE (janeiro), da qula fez parte da Comissão Auxiliar das Negociações, e outra (abril) referente à sua participação no III Congresso dos Trabalhadores em Energia. Já em 29 de setembro de 1964, ele é citado como fazendo parte de "uma relação de estudantes de direito, tidos como elementos comunistas integrados nos meios universitários."
Ibsen Pinheiro, por sua vez, tem cinco páginas de passagens, incluindo algumas prisões. Entre 1950 e 1953 ele aparece em várias passagens, como jornalista do jornal A Tribuna, do PCB, e por ser um dos líderes das Campanhas em Defesa da Paz, "de inspiração e orientação comunista". A partir de 1964, tem algumas passagens referents a depoimentos no DOPS, em um dos quais acusa o funcionário da Rádio e Televisão Gaúcha (atual RBS), Clóvis Stenzel, de ser um alcaguete, denunciando colegas progressistas para serem demitidos da empresa (o próprio Ibsen foi um deles).
Ivo Correa Pires teve quatro páginas de passagens. A primeira de 1945, quando filiou-se ao PCB, então um partido legal (e mesmo assim investigado pelas forças de repressão). Entre 1950 e 1954 são várias passagens, decorrentes de sua atuação no jornal A Tribuna e em reuniões de jornalistas. Após o golpe, apenas duas citações, a última delas de 15 de maio de 1965, onde o DOPS afirma que "o nominado pertence à Base dos Jornalistas do PCB, nesta capital."
Passados alguns anos, em 6 de setembro de 1979 a Agência de Porto Alegre do Serviço Nacional de Informações elaborou um documento analisando uma entrevista de Valdomiro, ponteiro-direito do Internacional, publicada pelos jornais Zero Hora e Diário de Notícias. Após um pequeno texto elaborado pelos arapongas, são anexadas as duas matérias. No Diário de Notícias ressaltou-se a crítica de Valdomiro à Federação Gaúcha e à CBD. Na Zero Hora aparecem as frases que incomodaram os agentes da ditadura: "que durante algum tempo foi manipulado conto objeto de sustentação política de um regine que agora deplora", "isto aqui tá ficando pior que a Rússia" (na parte escrita pelos arapongas, Rússia é gravada com todas as letras maiúsculas) e "fiquei sabendo que 85% do povo brasileiro ganha menos de cinco mil por mês". Para diminuir a importância das palavras do atleta, o jornal cita, logo após a frase sobre a Rússia, "declara ele em sua ingenuidade."
Finalmente, a edição do Coojornal de junho de 1982 foi anexada inteira aos documentos do SNI. Em uma seção, chamada voto aberto, cinco personalidades gaúchas falam sobre em quem votariam nas eleições de novembro. Três delas eram ligadas ao futebol. O jogador do Internacional, Cléo, abriu voto para Olívio Dutra. "Vou votar no PT e ajudar na campanha eleitoral, conversando com as pessoas, principalmente com os colegas de profissão, explicando a proposta do Partido."Cid Pinheiro Cabral, cronista esportivo e ex-dirigente colorado, não quis abrir o voto. "Sou um homem sem acentuada definição partidária, desde que o socialismo morreu na casca em nosso palco político." Finlmente, Paulo Odone, vice-presidente de futebol do Grêmio, declarou voto em Pedro Simon. "Sou filiado ao PMDB e vou votar no Pedro Simon, evidentemente."
Enfim, um longo período da história brasileira que as forças de repressão vigiavam e espionavam a sociedade brasileira nos mais diversos setores.

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