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quarta-feira, 5 de março de 2025

Dirigentes: Antenor Lemos

 
Fonte da imagem: https://www.facebook.com/CardsdoInternacional

                Antenor Ribeiro Lemos nasceu em Pelotas, em 5 de março de 1891. Mas em 1909 ele encontrava-se residindo em Porto Alegre e foi um dos fundadores do Sport Club Internacional. Segundo a tradição, teria sido um dos principais responsáveis pelo desafio ao Grêmio, para o jogo inaugural do clube.

                  Antenor Lemos sempre teve um temperamento exaltado. Em agosto de 1909, fez parte da comissão de estudantes que se reuniu com a Companhia de Operas alemã Papke, para exigir uma retratação da mesma sobre ofensas à comunidade porto-alegrense. Um ano antes a companhia esteve em Porto Alegre, com a atriz Otti Dietze, que depois escreveu um livro fazendo pouco caso de Porto Alegre, dizendo que se limitava a uma rua, que o hotel Brazil, onde a companhia ficara hospedada era um bordel e a cidade deveria se chamar Tristópolis. No retorno da companhia, sem a atriz, o livro foi vendido na cidade, gerando revolta na população. Federalista, na noite de 23 de fevereiro de 1912 Antenor Lemos envolveu-se em um conflito com militantes republicanos. Após troca de socos e bengaladas, Lemos foi ferido com um tiro, sem gravidade. O jornal A Federação, vinculado ao Partido Republicano Riograndense, o descreveu como "incorrigível turbulento".[1]

            No campo esportivo, Antenor Lemos teve uma curta experiência como atleta, jogando de lateral e meia esquerda. Em outubro de 1909 ele viajou para o Rio de Janeiro, e a imprensa gaúcha noticiava que ele iria jogar no Botafogo ou no Fluminense. Mas a experiência carioca durou pouco e Antenor Lemos retornou a Porto Alegre logo em seguida. Lemos atuou em apenas três partidas pelo time principal do Internacional, entre 1910 e 1911, e mesmo no 2º quadro não era figura constante. Fora dos gramados, porém, teve muito mais destaque.

            Em 1911, Antenor Lemos foi eleito 1º secretário da Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball, na época presidida por Henrique Poppe. Funcionário do Banco Pelotense, também foi 1º secretário do Internacional nas gestões de 1913 e 1914. No ano de 1915 não fez parte da direção, mas apoiou a chapa de situação e foi nomeado para a comissão que reformaria os estatutos do clube. No mesmo ano, foi testemunha no inquérito policial que investigava os acontecimentos do dia 14 de julho, quando a Brigada Militar investiu contra manifestantes, deixando vários feridos e alguns mortos.

            Em 1916, Antenor Lemos foi eleito 1º secretário da Federação Sportiva Rio-Grandense (FSRG), criada com a unificação do futebol da capital. Sempre polêmico, chegou a pedir demissão do seu cargo em setembro de 1916, mas foi convencido a mudar de ideia pelos outros dirigentes.

            Em outubro de 1917, junto com Edmundo Carvalho, Antenor Lemos lançou a revista “Rio Grande do Sul Sportivo”. Em novembro de 1917, foi um dos principais defensores da expulsão do Frisch Auf da FSRG. O clube havia recusado “desgermanizar” o nome, apesar da declaração de guerra do Brasil à Alemanha. O clube foi expulso e fechou as portas.

            No final de 1917, a FSRG decidiu tornar-se uma entidade estadual. Antenor Lemos viajou a Pelotas e retornou com o apoio de Brasil e Pelotas à proposta. No início de 1918 foi a Caxias do Sul, onde ganhou a adesão de Juvenil e Juventude. Em maio de 1918 foi fundada a Federação Rio-Grandense de Desportos (FRGD). Em junho de 1918 Antenor Lemos foi eleito 1º secretário do Internacional.

            Em junho de 1918, Antenor Lemos tornou-se o cronista esportivo do jornal O Exemplo, principal jornal da comunidade negra porto-alegrense.[2]

            No campo político, em 1919 Antenor Lemos envolveu-se na campanha para que Ruy Barbosa fosse candidato a presidente da República, mas o político baiano desistiu de concorrer. Dirigente esportivo de influência estadual e com fortes ligações com sua terra natal, no início de 1920 ele foi um dos chefes da delegação do Brasil de Pelotas que viajou ao centro do país para disputar o campeonato brasileiro, com o Paulistano e o Fluminense.

            Em 28 de dezembro de 1919 Antenor Lemos foi eleito presidente do clube, com 38 votos, contra dois votos de Heitor Carneiro.

            A temporada de 1920 viu nova divisão no futebol da capital e o Internacional conquistou o título municipal. Em 23 de dezembro de 1920, Antenor Lemos foi reeleito presidente por aclamação. No final de 1921, foi novamente eleito presidente, conquistando o título municipal da temporada seguinte. Em 2 de dezembro de 1922, Antenor Lemos foi eleito para o Conselho Diretivo do Internacional, órgão criado para substituir o Conselho Fiscal, deixando a presidência do clube após três anos.

O ano de 1923 teve um acontecimento trágico na vida de Antenor Lemos. No dia 14 de agosto, seu irmão Álvaro Lemos (que também havia sido atleta do Internacional) foi morto no Combate de Canguçu-Velho, durante a Revolução de 1923. Em 2 dezembro do mesmo ano, Antenor Lemos foi eleito vice-presidente do Internacional.

Antenor Lemos voltaria ao comando do Internacional em 21 de novembro de 1925, quando recebeu 74 votos contra 14 de Plínio Chaves de Figueiredo. Em 6 de janeiro de 1927, ao terminar seu mandato, Antenor Lemos foi agraciado com o título de presidente honorário do Internacional. Em abril do mesmo ano, foi eleito presidente da Federação Rio Grandense de Desportos. Em seu mandato inicial, o Internacional conquistou o título gaúcho pela primeira vez.

            Colorado extremado e explosivo, Antenor Lemos entraria em rota de colisão com o clube a partir de 1929, tendo como eixo a Lei do Estágio. Desde os primeiros anos do futebol na capital gaúcha existia a chamada Lei do Estágio, que determinava que cada atleta que trocasse de clube deveria cumprir seis meses de “estágio”, sem jogar partidas oficiais. A medida buscava impedir o profissionalismo, e Antenor Lemos era um radical defensor do amadorismo. No início da temporada de 1928, uma crise provocada pela transferência de atletas, sem respeitar a Lei do Estágio, paralisou o campeonato da cidade por um mês.

            Em novembro de 1928, Antenor Lemos teve que enfrentar uma insurreição dos jogadores da seleção gaúcha que disputava o campeonato brasileiro, no Rio de Janeiro. Oscar Borba, chefe da delegação, fez vir de avião ao Rio o atacante Nenê, do Internacional, que inicialmente não fora convocado. Com Nenê em campo, o Rio Grande do Sul bateu o Mato Grosso por 6x4. Sabendo da utilização de Nenê, Antenor Lemos, presidente da FRGD, viajou ao Rio de avião, afastou Oscar Borba do comando da delegação e ele próprio assumiu os destinos do time, tirando Nenê da equipe. Oito jogadores solidarizaram-se com Nenê e Oscar Borba e recusaram-se a jogar a partida seguinte. Tendo Antenor Lemos como técnico e apenas nove jogadores em campo, os gaúchos perderam para o Paraná por 2x0, sendo eliminados da competição. Antenor Lemos, Oscar Borba e Nenê eram nomes vinculados ao Internacional.

            Em janeiro de 1929, na condição de presidente honorário do Internacional, Antenor Lemos presidiu a Assembleia Geral que elegeu Ildo Meneghetti presidente do clube, por aclamação. Em fevereiro, ele foi eleito para o recém-criado Conselho Deliberativo do clube. Mas em 10 de abril de 1929, Internacional, Grêmio e alguns dos principais clubes da cidade, abandonaram a APAD e fundaram a Associação Metropolitana Gaúcha de Esportes Atléticos. O principal motivo da cisão entre APAD e AMGEA foi a “Lei do Estágio”, extinta por iniciativa do Internacional. A discussão sobre o fim da lei opôs dois importantes dirigentes colorados: Ildo Meneghetti, presidente do Internacional, e Antenor Lemos, presidente da FRGD. Mesmo assim, em 23 de abril de 1929, quando o Internacional colocou à venda para os sócios cotas de 500 mil réis para o caixa do clube e construção do Estádio dos Eucaliptos, Antenor Lemos adquiriu cinco cotas, só atrás de Ildo Meneghetti, que comprou dez cotas,

            A FRGD não reconheceu a AMGEA e manteve a filiação da APAD, que ficou restrita a Cruzeiro, São José, Porto Alegre e Theresópolis. Em resposta, no dia 7 de maio a AMGEA e a Liga Pelotense de Amadores de Desportos fundaram a Federação Atlética Gaúcha de Esportes Terrestres (FAGET). Antenor Lemos, que já havia perdido espaço no clube e no futebol da capital, se via ameaçado a perder poder no estado.

            O campeonato brasileiro foi o momento em que a crise se aprofundou. Em 24 de outubro de 1929, jogando apenas com atletas da APAD, a seleção gaúcha empatou em 3x3 com os catarinenses. O desempenho foi tão ruim que Antenor Lemos declarou que mesmo que eliminasse os catarinenses, a seleção gaúcha não viajaria a São Paulo, para a fase seguinte. Em 26 de outubro, no jogo-desempate, os gaúchos venceram por 7x0. Para enfrentar os paulistas, porém, Antenor Lemos começou uma campanha de pressão para que a AMGEA e a FAGET cedessem seus atletas para a seleção gaúcha. Diante da recusa dos clubes em cederem seus atletas, Antenor Lemos realizou uma reunião com alguns jogadores colorados, convencendo Ross, Ribeiro e Lampinha a viajarem com a seleção. O embarque ocorreu um dia antes do Gre-Nal que definiria o campeonato. Sem seus três titulares, o Internacional perdeu o clássico por 2x1, resultado que deu o título municipal ao Americano. No dia 23 de novembro de 1929, a Assembleia Geral do Internacional eliminou dos quadros sociais os três atletas, Antenor Lemos e mais dois ex-dirigentes. Antenor Lemos também teve seu título de presidente honorário cassado. Nessa Assembleia, Ildo Meneghetti afirmou que Antenor Lemos estava “procedendo enfim como o pior inimigo que o S.C. Internacional jamais teve”. Quanto à Seleção Gaúcha, com Ribeiro e Ross em campo, foi massacrada pelos paulistas, perdendo por 9x0.

            A derrota vergonhosa enfraqueceu o poder de Antenor Lemos. No início da temporada de 1930 o Cruzeiro trocou a APAD pela AMGEA. Sem recursos, a FRGD não conseguiu organizar o campeonato estadual, enquanto a FAGET organizou seu primeiro e único campeonato. No início de 1931, Antenor Lemos saiu da direção da FRGD e em abril, após negociações, a veterana entidade absorveu a FAGET. Antenor Lemos desapareceu das manchetes esportivas, figurando apenas em notícias relacionadas à política estadual.

            Mas o tempo acalmou os ânimos. Em 7 de março de 1931, por proposta de Ildo Meneghetti, a Assembleia Geral do clube anistiou todos os sócios punidos, em homenagem à inauguração dos Eucaliptos. A expulsão de Antenor Lemos foi anulada. Em 29 de dezembro de 1933, Antenor Lemos foi eleito para o Conselho Deliberativo do Internacional. Em 4 de abril de 1934, na festividade do 25º aniversário do clube, Antenor Lemos fez um discurso emocionado, relembrando colorados já falecidos e encerrando com o pedido de um minuto de silêncio em homenagem a Henrique Poppe. Em 6 de maio de 1934, ao girar a manivela de seu automóvel, Antenor Lemos sofreu um acidente e fraturou o braço direito.

            Histórico libertador, em junho de 1934 Antenor Lemos aliou-se ao seu antigo rival, Flores da Cunha, contra a Frente Única Gaúcha, formada, por sua vez, por antigos libertadores e republicanos. Voltando ao futebol, em 7 de setembro de 1934, Antenor Lemos foi um dos fundadores da Associação Tristezense de Esportes Atléticos (ATEA), reunindo os clubes amadores da zona sul da cidade.

            Em 19 de dezembro de 1936, Antenor Lemos foi reeleito para o Conselho Deliberativo do Internacional. Seria reeleito sucessivamente em 1943, 1945 e 1947.

            Em 8 de outubro de 1944, após um Gre-Nal dramático ocorrido na Timbaúva, o Internacional venceu por 2x1 e conquistou o pentacampeonato municipal. Emocionado, ainda no gramado da Timbaúva, Antenor Lemos fez um discurso saudando os atletas colorados, utilizando pela primeira vez a expressão “Clube do Povo”.[3]

            Antenor Lemos faleceu em 14 de abril de 1950. Em 1952, o vereador Martim Aranha, ex-presidente do Grêmio, propôs homenageá-lo alterando o nome da Rua Silveiro. Esse projeto não foi aprovado, mas em 15 de setembro de 1952 a Rua Internacional teve seu nome alterado para Antenor Lemos. Essa pequena rua une as ruas Barão do Cerro Largo e José de Alencar.


[1] A Federação, 26 de fevereiro de 1912, pág. 4.

[2] O Exemplo, 23 de junho de 1918, pág . 2.

[3] Jornal do Dia, 29 de julho de 1952, p. 6 e 7.



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