terça-feira, 15 de agosto de 2017

Futebol, elemento de integração social?

Trecho de uma interessante palestra de Eric Hobsbawm, proferida no Festival de Música de Salzburgo, em 2000, e publicada mais tarde na sua obra póstuma Tempos Fraturados.

"Mas será que esse globo novo, complicado e multidimensional, em constante movimento e em constante combinação, traz consigo a esperança de fraternização humana, da qual nossa era de xenofobia parece tão distanciada? Não sei dizer. Acredito, porém, que a resposta talvez possa ser encontrada nos estádios de futebol do mundo. Pois o mais global de todos os esportes é ao mesmo tempo o mais nacional. Para a maior parte da humanidade hoje, onze homens jovens num campo de futebol é o que personificam 'o país', o Estado, 'o nosso povo', e não os políticos, as constituições e as movimentações militares. Aparentemente, esses times nacionais são compostos de cidadãos nacionais. Mas todos nós sabemos que esses milionários dos esportes aparecem num contexto nacional apenas alguns dias por ano.  Em sua principal ocupação, eles são mercenários transnacionais, regiamente pagos, quase todos a serviço de outros países. Os times aclamados a cada dia por um público nacional são montagens heterogêneas de só Deus sabe quantos países e raças, em outras palavras, daqueles que são reconhecidos como os melhores jogadores do mundo. Na maioria dos clubes nacionais bem-sucedidos há, por vezes, não mais do que dois ou três jogadores nativos. Isso é lógico mesmo para torcedores racistas, pois o que eles querem acima de tudo é um clube vitorioso, ainda que não mais racialmente puro.

Feliz a terra que, como a França, se abriu para a imigração, e não leva em conta a etnicidade de seus cidadãos. Feliz a terra que se orgulha de poder escolher, para seu time nacional, africanos e afro-caribenhos, berberes, celtas, bascos e os filhos de imigrantes ibéricos e do leste da Europa. Feliz, não só porque isso lhes permitiu ganhar a Copa do Mundo, mas porque hoje os franceses - não os intelectuais e os principais adversários do racismo, mas as massas, que afinal de contas inventaram e ainda personificam a palavra 'chauvinismo' - declararam que seu melhor jogador, o filho de imigrantes muçulmanos da Argélia, Zinedine Zidane, é, muito simplesmente, o 'maior dos franceses'. Reconheçamos que isso está muito longe do velho ideal da irmandade das nações, mas está mais longe ainda do pensamento dos valentões neonazistas da Alemanha e do governador da Caríngia. E, se as pessoas não forem julgadas pela cor da pele, pela língua que falam, pela religião que praticam, e coisas do gênero, mas pelos seus talentos e conquistas, então há motivo de esperança.  E há motivo de esperança porque o curso da evolução histórica vai na direção de Zidane, e não na de Jörg Haider."

Para ajudar na compreensão do texto, Jörg Haider, político austríaco de extrema-direita e simpatizante de Hitler, era, na época, governador da Caríngia.

Se o mundo ainda tem dado saltos para trás, em algumas demonstrações de xenofobia e preconceitos de todo tipo, mesmo assim, como disse Hobsbawm, o curso da evolução histórica continua seguindo, as vezes mais rápido, as vezes mais lento, na direção de Zidane. E o futebol, com sua paixão extremada, seu fervor religioso, tem ajudado, mesmo que inconscientemente, na maioria das vezes, a derrubar barreiras e preconceitos. E para acelerar o curso da evolução histórica, é de fundamental importância revertermos esse processo de elitização do futebol. Que o povo possa voltar a frequentar os estádios de futebol!

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