sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Saudações, Oh Gigante


Há alguns anos, uma colorada paranaense pediu que eu fizesse um texto para ela homenagear seu pai, que saiu cedo do Rio Grande do Sul, nunca foi ao Beira-Rio, mas manteve firme seu coloradismo, convertendo toda a família que formou no Paraná à religião alvi-rubra. Em tempos de reforma do Beira-Rio, em que certamente todos os colorados se sentem meio órfãos, com a falta da sua casa, achei interessante postar o texto, que fala um pouco desse sentimento.

Saudações, Oh Gigante:

Durante muito tempo, eu esperei este momento!

Por vários anos, meu sentimento era muito mais fé que certeza. Eu acreditava na sua existência, sem poder vê-lo. Mas jamais duvidei de sua imponência.

Na infância mais tenra, um radinho de pilha cheio de estática, enfiado embaixo das cobertas, em uma noite fria de inverno, ou sentado no quintal, em uma quente tarde de verão, eu acompanhei as peripécias dos 11 guerreiros que defendiam tua casa, e invejei, salutarmente, a sorte dos milhares de assistentes destas aventuras.

Em momentos de maior felicidade, podia ver os heróis rubros baterem-se pela TV, fosse no Gigante, ou em expedições guerreiras por territórios inimigos. Me agradava muito quando invadíamos o território dos maldosos gremistas, nossos arqui-inimigos, e trazíamos seu escalpo para pregar na entrada da nossa casa. Digo nós, por que me sentia presente em alma e pensamento, apesar da distância física.

As vezes me sentia diminuído, quando ouvia exortações do tipo: “lugar de colorado é no Beira-Rio!” Gostaria muito de estar lá, vibrar com o time, festejar com a torcida, mas tudo parecia ocorrer em outro planeta. Mas eu sei que o coração de um gigante é imenso, e alcança os sentimentos de afeto pelo clube, por mais distantes que estejam.

Se há o lado negativo desta distância, não poder compartilhar o dia a dia do clube, há o lado positivo, fantasioso, da paixão pelo futebol. Os jogadores deixam de ser seres humanos, para tornarem-se semi-deuses. Suas jogadas, mais do simples lances de uma partida, passam a simbolizar a eterna luta do bem contra o mal. Os estádios tornam-se templos sagrados de uma misteriosa religião, onde apenas os eleitos têm acesso. E o radinho tem a força mágica de transformar qualquer jogador em um craque, os lances favoráveis ao adversário em falhas do juiz, e todo gol colorado em uma pintura.

As vezes pensava: quando ele vier jogar aqui, eu irei assistir a partida. Mas para meu azar, minha cidade fica fora da rota dos grandes acontecimentos esportivos. Posso apenas torcer para que venha jogar alguns quilômetros mais perto do que no Templo Sagrado.

Mas hoje estou aqui: olhando a imponência do Gigante da Beira-Rio! Não importa que não haja jogo. Respirar o ar que alimentou o fôlego de Falcão, Figueroa, Valdomiro e Fernandão, já me basta. Posso imaginar a torcida descendo pelas rampas, gritando “É Campeão”. Nunca fiz isso presencialmente, mas foram muitas as conquistas em que estive aqui em espírito. Agora posso me orgulhar. O que sinto, os assíduos freqüentadores do estádio não sentem. Não se emocionam com cada detalhe, um escudo do clube aqui, uma foto de um ídolo ali, um pedaço de ingresso lá adiante. Aquilo que é cotidiano para alguns, é mágico para mim. Não precisava estar aqui, para acreditar em sua existência, mas estar aqui renovou minhas energias, para continuar torcendo à distância.

Mas o que mais me alegra, é saber que não precisaria estar aqui, não preciso conhecer Porto Alegre, sequer ser gaúcho, ou mesmo brasileiro, para poder venerar este clube, e ser reconhecido como um verdadeiro colorado, pois este clube é INTERNACIONAL!

2 comentários:

  1. Bah... lindo demais, me emocionei! Parabéns professor Raul!

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Regina!
    Não foi muito difícil escrever esse texto, pq morei no interior por muitos anos, e vivenciei essa realidade, mesmo que eventualmente assistisse algumas partidas no Gigante.

    ResponderExcluir